Cozinha de Lavoisier

Na cozinha nada se perde, nada se cria: tudo se transforma.

E no começo havia a fome e a malandragem

2 Comments

Comecei a cozinhar tão novinha que nem lembro. Foi natural: tinha fome, estava sozinha, fazia a comida. Mas ao contrário dos meus amiguinhos do play, que se rendiam facilmente a um pacote de Doritos ou a um miojo, a gordinha aqui criava sanduíches com resto de tudo que tinha na geladeira ou inventava novos molhos para o macarrão instantâneo. Eu cresci e agora sou mulher (hihihi). A vida me fez morar sozinha algumas vezes, e foi assim que percebi que minha fome não mudaria e continuaria seletiva: gosto de comida com cara de comida, comida de mãe, comida de verdade. Saquinhos e pacotes tem lá sua graça, mas eu fico irritada se não comer pelo menos uma refeição digna no dia – afinal, essa vida já é dura, não precisamos comer mal, né gente? Sem medo de fogão, fui desbravando os meus limites na cozinha. Fiz feijoada, vatapá, todos os tipos de massas e doces possíveis, pães… e hoje me considero uma verdadeira espertona da culinária (rá!). De quebra, ainda fiz sucesso nas sociais da vida, fiz amigos (e engordei alguns), promovi orgias alimentares… só não peguei ninguém pelo estômago ainda. Não, nunca fiz curso nem nada, mas me viro direitinho com as panelas. Se tiver receita, eu faço. E faço bem.

Morar sozinha tem suas dificuldades ($!). Nem sempre temos tempo ($!) de preparar as coisas que queremos. Nem sempre temos os ingredientes ($!) ideais para a receita que achamos na internet. Nem sempre podemos ($!) de ir até o supermercado e comprar o que falta. É preciso equilibrar a quantidade do que se compra (as coisas estragam rápido sem outras pessoas na casa para comer também), é preciso ajustar o paladar ao orçamento e principalmente é preciso aproveitar as sobras como se não houvesse amanhã (porque se você parar para pensar, na verdade amanhã pode mesmo não haver o que comer). Foi vivendo la vida loca tempos de economia que eu fiquei esperta e desenvolvi a capacidade de racionamento culinário. Afinal, cozinha é guerra, cozinha é arte, cozinha é malandragem morena e marota. E eu achei que deveria compartilhar essa sapiência com os coleguinhas que, assim como eu, moram sozinhos e não tem muito dinheiro, mas adoram uma comida gostosa.

Faz tempo que as pessoas me perguntam porque eu não faço um blog de comida. A verdade é que eu sou muito preguiçosa e incostante com projetos pessoais, além de acreditar que os blogs, sites e toda internet já tem receitas suficientes para ajudar qualquer um que queira cozinhar. Mas desde que mudei para São Paulo nunca tive que espremer tanto os ingredientes que compro, e junto com meu companheiro de cela Cauê, tenho feito uma verdadeira alquimia alimentar. Foi em uma noite de desespero, onde um resto de feijão e arroz se transformou em bolinhos delícia, que tivemos a ideia para esse blog. É simples: aqui tudo se transforma.

Então, voilà, espero que vocês gostem. Postarei aqui (em ritmo baiano nagô, aviso logo) receitas low cost, criativas e que reaproveitem ou improvisem os alimentos. E também dicas de coisas simples e que fazem toda diferença na hora de cozinhar, para os não-iniciados. Transformar pedra em água, sabe? É isso que você vai achar aqui – então nem adianta buscar a receitas finas e sofisticadas para impressionar, porque a vibe é pobreza e jogo de cintura mesmo (por mais que as comidas pareçam chiques e frescas nas fotos e que eu disfarce usando nomes mirabolantes, hehehe).

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Author: Mariele Góes

A única constante na minha vida é que gosto de cozinhar. Já tentei ser fotógrafa, já toquei em banda, já ataquei de dj. Me formei em jornalismo e estava indo bem, até trabalhava em uma grande revista nacional, mas achava tudo chato. Resolvi estudar gastronomia como um hobby e de repente me vi totalmente envolvida. Larguei tudo, recomecei do zero e hoje estou radiante por passar 12h por dia de pé, mexendo com fogo e facas. Formada em gastronomia pela Anhembi Morumbi, em São Paulo, e me especializando em cozinha francesa na Ferrandi Paris.

2 thoughts on “E no começo havia a fome e a malandragem

  1. Isso é tortura,mariele goes na fila do blog….

  2. Nossa, Mariele, que blog mais agradável. Me senti privilegiada de pegá-lo bem no comecinho! Adorei e já estou com três receitas para imitar; a primeira vai hoje. Parabéns e mil sorrisos.

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